A arte e o lugar: ensaio sobre a produção artística
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Por Tamires Santana
Jornalista, artista multimídia e produtora cultural
Da observação silenciosa ao relato de um processo criativo que transformou uma praça em memória coletiva

Antes da primeira pincelada, houve semanas de observação. Os degraus de madeira da Praça Santo Antônio, no Centro de Caieiras, serviram como ponto fixo para acompanhar, dia após dia, o movimento ao redor da Concha Acústica de Caieiras — o palco que, meses depois, se tornaria tela para um mural que hoje ultrapassa a função decorativa e vira símbolo de pertencimento.
Toda transformação artística relevante começa com um olhar atento sobre o que já existe — e sobre o que aquele lugar ainda pode se tornar. Por isso, antes de qualquer esboço, o primeiro passo foi observar em silêncio: carros estacionando, senhoras saindo da missa, jovens voltando da escola, conversas soltas na praça. Teve festa também — a de Santo Antônio, com barracas, bingo, orquestra e dança. Dessa observação nasceu o que chamo de olhar técnico: entender o palco, a luz, o som, a arte que já pulsava ali antes de qualquer tinta.
Após a travessia da observação veio a criação do concept art. Para um espaço que atravessa gerações, a pergunta que guiou o processo foi simples e ao mesmo tempo enorme: como fortalecer o pertencimento desse lugar? A resposta exigia pensar a Concha em duas camadas — a parte interna e a parte externa — cada uma com sua própria narrativa.
“Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem”, para a parte interna, um elemento não poderia ficar de fora: o trem. A figura remete diretamente à canção "O Trem das 7", de Raul Seixas, que narra a chegada de um trem trazendo consigo o peso e a beleza do tempo que passa — uma metáfora que dialoga com a própria história de Caieiras.

Foi a ferrovia que impulsionou a produção de papel e celulose na cidade, atraiu trabalhadores e estruturou seu crescimento urbano, ao lado de outros dois clássicos da paisagem local: os pinheirais e os fornos de cal.
Outros elementos entraram na composição interna: o "Ovo do Pato", formação rochosa nos arredores do bairro Morro Grande, e as formações de Cerrado presentes em parte das trilhas que levam até esse ponto natural da cidade. Sobre o Ovo do Pato, aliás, uma correção histórica: seu verdadeiro nome só me foi revelado em 2024, durante as gravações do documentário "10 anos do Sarau Porco a Pá". Foi Katia Frediani quem me despertou para a verdade — pato não bota ovo (ainda que se possa argumentar, com humor, que um pato pai também pode assumir a paternidade e reivindicar o ovo como seu).

De sorrateiro no cenário, entrou também um disco voador — porque quem não soube do caso de aparição de um OVNI na Cantareira perdeu uma boa prosa. Ao lado dele, a família tradicional de…quatis, a musicalidade de um instrumento de cordas confluindo com o tambor, e a bailarina que dança sob uma "Noite Estrelada". Cada um desses elementos, à sua maneira, ecoa a frase que resume o espírito do mural: arte é progresso.
Já na parte externa, o mural retrata o legado de grandes músicos da música brasileira: Luiz Gonzaga, que tem videoclipe gravado na estação de Caieiras; Jovelina Pérola Negra, cantora e compositora fundamental para a popularização do samba e do pagode; Tim Maia, um dos pioneiros na introdução dos gêneros soul e funk na música popular brasileira; Elis Regina, reconhecida por sua incrível competência vocal, musicalidade e presença de palco; o grande cantor e compositor Raul Seixas, o qual fez um show em Caieiras e terminou na delegacia.

Após o público duvidar de sua identidade e o acusar de ser um sósia, o cantor foi agredido e preso temporariamente por policiais que não acreditaram que ele era o verdadeiro "Maluco Beleza". Também estão retratados Sabotage, rapper, cantor, compositor e ator brasileiro; Marília Mendonça, reconhecida como uma das maiores vozes da música sertaneja, sua contribuição para o empoderamento feminino revolucionou o universo da música sertaneja; Renato Russo, cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista brasileiro, célebre por ter sido líder, vocalista e fundador da banda Legião Urbana e Cartola, cantor, compositor, poeta e violonista brasileiro, sendo um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira.
Com o concept art aprovado, restava a parte mais desafiadora: fazer tudo isso ganhar vida na parede.
Da parede em branco à pintura vida

Como diz o ditado “papel aceita tudo” — o desafio real começa quando o desenho precisa virar mural. Para isso, foi selecionada uma equipe de artistas e produtores, levando em conta tanto a estética quanto o prazo de entrega.
Cada um com sua personalidade, os artistas transformaram o processo em algo genuinamente divertido — entre "resenhas", litros de tinta e o sobe e desce constante de escadas e andaimes. Bonga Mac, artista de Caieiras, Xyrox, Gravetos, Tioch, Joks e Guetus deram vida à pintura, com a assistência da artista caieirense Karen Kinomoto. Na segurança do trabalho, Josimar Silva fez a estrutura funcionar com uma segurança tão sólida que subir e descer da Concha parecia brincadeira de criança — e, de lá de cima, a vista da Concha Acústica de Caieiras é de tirar o fôlego (embora ainda sejam poucas as residências e comércios da região usando energia solar; dá para contar nos dedos).

Cada artista tem seu ponto forte: uns se destacam na composição de rostos, outros na construção de paisagens, outros ainda na agilidade de construir elementos em perspectiva. A experiência e a sinergia do grupo fizeram a distribuição de tarefas acontecer de forma orgânica — o que significa que, em cada elemento pintado ali, há sempre a contribuição de mais de uma pessoa. É isso que torna visível a capacidade de adaptação de todo o time.
Estar à frente da produção executiva e da direção de arte trouxe seus próprios desafios: lembrar que é necessário solicitar e monitorar a entrega da comida, garantir a quantidade de água, repor material — e, ao mesmo tempo, tomar decisões sobre a adaptação de elementos do desenho.
Fez parte do processo escutar e acolher sentimentos diante dos pontos mais desafiadores, encontrar soluções que garantissem a fidelidade à paleta de cores e à perspectiva projetadas, e também saber abrir mão de algo em nome do conjunto — foi assim que, tristemente, uma família de quatis, originalmente bem maior, acabou reduzida a três membros na versão final.
Houve também uma parte do processo que ninguém vê, mas todo mundo sentiu: a cada traço, uma playlist tocava, dando leveza e energia à pintura externa, criando uma vibe só dela. E, à noite, quando a temperatura caía, vinha outro tipo de aprendizado — o de que touca nem sempre combina com capacete de segurança, e que calcular o próprio cansaço é parte tão essencial do ofício quanto calcular a tinta.
Hoje, as pessoas vão e vêm pela Concha Acústica de Caieiras. Interagem com o olhar, com comentários, com perguntas. Algumas observam em silêncio; outras comemoram ao reconhecer cada músico retratado. Nesses encontros, a pintura deixou de ser apenas uma obra e passou a atuar como elemento de pertencimento.
Para quem tiver o olhar atento, vale a pena reparar em um detalhe: a borda amarela na parte interna da Concha muda de tom entre o dia e a noite. Poucos percebem — quem será que tem a sensibilidade para notar?
Agora, depois desse encontro entre espaço público e arte, resta a pergunta que fica para o futuro responder: “quem vai chorar, quem vai sorrir?” Só o tempo — e quem passar por ali — vai dizer como esse espaço será ocupado.
Confira a Entrevista completa do Jornal Primeira Impressão:








































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