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Dessa vez eu vou concordar com o Lula


Por Ronaldo Calheiros

Escritor, Jornalista e editor do Jornal Primeira Impressão


Eu sei. Só o título deste artigo já é suficiente para causar náuseas em alguns leitores. Tenho certeza de que alguns vão ler e pensar que eu definitivamente perdi o juízo. Outros talvez concluam exatamente o contrário. E haverá ainda aqueles que, como manda o moderno manual das redes sociais, ficarão indignados antes mesmo de chegar ao segundo parágrafo. Paciência. Dessa vez eu vou concordar com o Lula.


Vamos aos fatos. Em entrevista à Record, durante o programa Domingo Espetacular, o presidente resolveu falar sobre a qualidade dos adversários que encontrou ao longo de sua trajetória política. Lembrou de nomes como Aureliano Chaves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas e Paulo Maluf, adversários da histórica eleição de 1989, e também de disputas posteriores contra nomes como José Serra e Geraldo Alckmin, além de citar Fernando Henrique Cardoso ao recordar o período em que PT e PSDB protagonizavam a política nacional. Depois de percorrer esse álbum de figuras de peso da política brasileira, Lula resumiu sua impressão dizendo que “o nível da política caiu muito”.


Então, eu acho que ele tem razão.

Não significa dizer que os políticos do passado eram melhores, que não existia corrupção, demagogia, populismo, negociatas ou toda aquela fauna que tradicionalmente habita Brasília. Não dá para romantizar a classe política de outrora, mas havia uma coisa difícil de negar: o debate político parecia exigir mais dos seus participantes.


Como exemplo, vamos lembrar da eleição de 1989. Talvez você que esteja lendo nem fosse vivo ainda, mas, se der um Google aí, vai entender que Brizola, Maluf, Lula, Covas, Ulysses e Aureliano eram políticos de alto quilate. Aliás, provavelmente iria odiar alguns deles com bastante entusiasmo, a ponto de ir para as redes destilar todo o seu ódio adolescente. Mas eram personagens políticos com história, ideias, posições claras e capacidade de sustentar um debate. O sujeito precisava subir num palanque, enfrentar uma entrevista longa, responder perguntas incômodas e explicar o que pensava sobre o país. Não havia assessor para transformar quinze segundos de uma resposta ruim num Reels emocionante com música épica ao fundo.


Depois vieram Fernando Henrique, Serra, Alckmin e tantos outros. Novamente, não estou discutindo se estavam certos ou errados. Estou falando de densidade política. Era possível discordar profundamente de alguém e ainda assim reconhecer que havia alguma coisa para ser discutida. Em algum momento, porém, parece que decidimos simplificar tudo.


A política entrou definitivamente na era das redes sociais e descobrimos uma coisa efêmera e extraordinária: para ser considerado um grande político já não é absolutamente necessário apresentar uma grande ideia. Às vezes basta apresentar um grande vídeo, uma bela trilha sonora e chorar olhando a foto do papai.


O currículo pode ser pequeno, desde que o número de seguidores seja grande. A proposta pode caber numa folha de papel, desde que a legenda caiba na tela do celular. E, se conseguir “lacrar” contra o adversário em menos de trinta segundos, melhor ainda. Afinal, explicar Previdência, reforma tributária, segurança pública, dívida, educação ou desenvolvimento econômico dá trabalho. E, pior, dificilmente viraliza. Talvez estejamos substituindo estadistas por administradores de Instagram.


Seria confortável demais colocar toda a culpa nos políticos. Eles apenas entenderam o mercado. Mas nós também mudamos. Passamos a consumir política como entretenimento. Escolhemos lados como quem escolhe time de futebol. Não queremos necessariamente ouvir aquilo que o outro pensa; queremos vê-lo derrotado. Não buscamos argumentos, buscamos munição. Afinal de contas, hoje o que realmente importa é o like.


E os políticos perceberam rapidamente. Se o eleitor recompensa o grito, aparece quem grita. Se recompensa a lacração, aparece quem lacra. Se recompensa o vídeo de quinze segundos, ninguém vai perder tempo preparando um discurso de quinze minutos. Talvez a política tenha ficado mais rasa porque nós também perdemos um pouco da paciência com a profundidade.


E isso independe de direita ou esquerda. Aliás, talvez seja uma das poucas coisas verdadeiramente democráticas da política brasileira atual: tem superficialidade para todos os gostos ideológicos.


E, antes que me chamem de lulopetista, o atual presidente também faz parte dessa história. Está na política nacional há décadas e ajudou a construir o ambiente político que agora critica. Lula e seu próprio grupo político também aprenderam a linguagem das redes, da polarização e das frases de efeito. Portanto, não dá para colocá-lo sentado numa arquibancada como mero espectador inocente do fenômeno.


Mas existe algo que não pode ser ignorado: Lula disputa eleições presidenciais desde 1989. Pouquíssimos brasileiros tiveram a oportunidade de observar, de dentro do campo, tantas transformações da política nacional.


Quando alguém com essa trajetória olha para os adversários que enfrentou durante quase quatro décadas e conclui que o nível da política caiu, talvez seja prudente pelo menos considerar a hipótese. Talvez tenhamos trocado o debate pela lacração, o contraditório pelo cancelamento, o palanque pelo algoritmo e a praça pública pela caixa de comentários.


E talvez o problema maior nem seja termos políticos piores. Talvez seja termos criado um ambiente em que ser melhor já não seja necessariamente uma vantagem eleitoral.


Confesso que terminar este artigo me provoca certo desconforto. Não porque concordar com Lula seja pecado, mesmo correndo o risco de ser imolado em praça pública, mas porque a frase dele nos obriga a olhar menos para os candidatos e um pouco mais para nós mesmos. Afinal, políticos também são produto da sociedade que os escolhe.


E, se realmente o nível da política caiu tanto, talvez a pergunta mais incômoda não seja onde foram parar os grandes políticos. Talvez seja outra:

Onde foram parar os eleitores que exigiam grandes políticos?

Pois é, presidente. Dessa vez eu vou ter que concordar com você!


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