Entenda o que muda com a PEC da Segurança Pública aprovada pelo Senado
Proposta fortalece a integração das polícias, amplia o combate às facções criminosas e prevê novas regras para a segurança pública. A redução da maioridade penal ficou de fora, mas voltará à discussão no Congresso.

O Senado Federal aprovou nesta terça-feira (3) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, uma das principais iniciativas do governo Lula para reorganizar o combate à criminalidade no Brasil. A votação foi unânime entre os senadores que participaram da decisão final, com 73 votos favoráveis no primeiro turno e 75 no segundo. Apesar do consenso sobre o texto principal, a sessão foi marcada por uma disputa envolvendo a redução da maioridade penal, que acabou retirada da proposta e será discutida separadamente.
Mas, afinal, o que é a PEC da Segurança Pública e o que ela muda na prática? Apresentada pelo Governo Federal, a proposta altera a Constituição para ampliar a cooperação entre União, estados e municípios no enfrentamento ao crime organizado. Atualmente, a segurança pública é uma responsabilidade compartilhada, mas as diferentes forças policiais nem sempre atuam de maneira integrada. A PEC busca enfrentar essa fragmentação, fortalecendo o compartilhamento de informações, as operações conjuntas e a coordenação nacional das políticas de segurança.
Uma das principais mudanças é a inclusão do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) na Constituição. A medida pretende dar maior estabilidade à integração entre as instituições policiais. A proposta também abre caminho para a criação de polícias municipais, desde que sejam cumpridos requisitos legais de formação, estrutura financeira e fiscalização. Outra alteração amplia as atribuições da Polícia Rodoviária Federal, que poderá atuar também no policiamento de ferrovias e hidrovias federais.

No combate às facções criminosas e milícias, a PEC estabelece diretrizes mais rigorosas, incluindo restrições à progressão de regime e a determinados benefícios, regras específicas para o cumprimento de penas em estabelecimentos de segurança máxima e mecanismos de confisco de bens ligados às atividades criminosas. O texto também reforça a proteção de vítimas, testemunhas e denunciantes, além de estabelecer garantias de financiamento para a segurança pública.
A votação aconteceu agora porque o Senado decidiu acelerar a tramitação da proposta, utilizando um calendário especial para dispensar etapas regimentais de discussão. O objetivo foi concluir a análise sem alterar o conteúdo principal aprovado pela Câmara dos Deputados, o que obrigaria o retorno do texto aos deputados e adiaria sua promulgação. O maior obstáculo era justamente a tentativa de incluir a redução da maioridade penal na reforma.
Duas emendas apresentadas durante a tramitação propunham mudanças na responsabilização criminal de adolescentes. Uma delas, do senador Rogério Marinho (PL-RN), previa a redução da maioridade penal para 16 anos como regra geral e para 14 anos em determinados crimes graves. A outra, apresentada pelo senador Camilo Santana (PT-CE), propunha a redução para 16 anos exclusivamente nos casos de crimes hediondos.
O relator, senador Rogério Carvalho (PT-SE), defendeu que o assunto fosse discutido separadamente, argumentando que a redução da maioridade penal exige um debate jurídico e político próprio. A decisão de retirar as emendas da PEC principal foi aprovada por uma margem apertada: 38 votos a 36. Parlamentares contrários ao desmembramento argumentaram que o tema faz parte da discussão sobre segurança pública e deveria ter sido votado naquela sessão.
Isso não significa, entretanto, que a redução da maioridade penal tenha sido rejeitada pelo Congresso. As duas propostas passarão a tramitar de maneira independente, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), comprometeu-se a dar andamento à discussão. Ainda não há, porém, uma data definida para a votação. Qualquer mudança na maioridade penal dependerá de nova aprovação constitucional, com o apoio de pelo menos três quintos dos parlamentares, em dois turnos, tanto na Câmara quanto no Senado.

Com a aprovação da PEC da Segurança Pública nas duas Casas, o texto segue para promulgação pelo Congresso Nacional. A mudança constitucional representa um novo marco para a organização da segurança pública brasileira, mas seus resultados dependerão também de regulamentação, investimentos e da capacidade de transformar a integração prevista no papel em ações concretas.
Afinal, para a população, mais importante do que saber quantas propostas foram aprovadas em Brasília é perceber se essas mudanças serão capazes de produzir aquilo que todos esperam: mais segurança nas ruas e menos espaço para a criminalidade.




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